Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, é personagem fácil na história brasileira. Habita o imaginário nacional por liderar o movimento da Inconfidência Mineira (1789). Condenado à forca, tornou-se mártir na luta pela independência nacional_ que aconteceria anos depois, em 1822.
A cena foi retratada por Pedro Américo em “Tiradentes Esquartejado” (1893), no acervo do Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora (MG). Uma pintura onde o corpo de Tiradentes é disposto dignamente, ocultando a crueldade maior que a cena pudesse evidenciar. A composição bem trabalhada do corpo esquartejado lembra os contornos do mapa territorial brasileiro.
O quadro evoca o barroco, por meio das contradições. Ao mesmo tempo em que a perna dilacerada em primeiro plano impacta pela barbárie, a cabeça mais ao fundo, impressiona pela serenidade e resignação. Ainda: enquanto a cena do enforcamento choca o olhar, bem ao fundo, por entre as estruturas da plataforma, a vida parece correr normalmente no velho casebre.
A professora Maraliz de C. V. Christo (Rev. de História/BN, Nº19, abril/2007, p.04), ressalta: “O sentido da tela vagueia entre dois extremos: da cabeça plena de significados positivos (o herói santificado) à materialidade cadavérica da coxa (...)”. Herói e humano: antítese que incomoda. O quadro perturbador, somente após o ano de 1969, se tornou conhecido do povo. Hoje a tela funciona como retrato da censura colonial.
Tiradentes foi um mártir nacional. O pintor Pedro Américo o retratou com feições semelhantes a Cristo. A cabeça bem ao centro do eixo entre o mastro da forca e a plataforma não lembram o Cristo crucificado? A serenidade da cabeça decepada não remete às últimas palavras de Cristo: “_ Está consumado!”. As semelhanças são gritantes.
Porém, as semelhanças se encerram no campo da representação pictórica. Tiradentes morreu por um ideal político; Cristo morreu por você. O alferes teve as partes de seu corpo espalhadas por onde se ascenderam fagulhas de revolta; Cristo ressuscitou ao terceiro dia com um corpo glorificado_ e inteiro. O sangue de Tiradentes denunciou os desmandos coloniais; Cristo assinou com sangue o pagamento da dívida humana quanto ao pecado.
O revolucionário Tiradentes lutou por uma independência política; Jesus Cristo luta pela independência espiritual do ser humano. A liberdade política proposta por Tiradentes não se compara à paz oferecida por Cristo. Tiradentes foi o mártir da independência; Cristo é o mártir da paz. Cristo quer transformar a sua vida. “Independência ou morte espiritual”: a escolha é sua!
In: Revista Via Arte. Nº 44, 04/09/2009.
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