FÓRUM PARA O CUIDADO INTEGRAL DE MISSIONÁRIOS
TEMA: O Choque Cultural
no Processo de Adaptação Transcultural: Alerta aos Enviadores e Missionários
Pr. Hamilton Pereira Morais Filho
Ouvi recentemente uma experiente líder de certa agência missionária dizer que o
choque cultural é “aquela desorientação sentida quando você está num país
diferente do seu” e isso leva a “atitudes que você não teria se estivesse em
casa”. Creio que essa afirmação “natural”, com o uso de expressões
corriqueiras, engloba satisfatoriamente o significado do assunto. Na verdade,
precisamos aproximá-lo de nós e isso facilita a sua compreensão. Aliás, quais
os desdobramentos do choque, o que ele pode causar, o que pode ser feito
“antes, durante e após” o aparecimento deste inevitável ‘visitante’ no processo
de adaptação dos obreiros transculturais? E mais ainda, o que os candidatos
deveriam saber antes de desembarcarem noutro país e qual o papel da retaguarda
neste quesito? São muitas indagações, mas há pistas que podem nortear algumas
respostas e abrir novas e importantes discussões.
Em relação aos conceitos, o choque cultural é mesmo esse estado de confusão
mental experimentado quando o indivíduo deixa seu ambiente cultural e aporta
noutra realidade distinta da sua. O grau do choque está relacionado às
diferenças entre as culturas, mas também existem as variáveis pessoais que
agravarão ou minimizarão os efeitos do mesmo. Além disso, o apoio dado aos
sujeitos quando estão vivenciando o ápice do estresse transcultural – ou o
estresse surgido como consequência desse “encontro/confronto entre culturas” –
é “divisor de águas” neste processo. Isto é, o suporte social é visto como
elemento crucial para um enfrentamento saudável nesta fase inevitável do
processo de aculturação.
Todas as tarefas da vida humana
requerem de seus atores certo grau de estresse. Desde cozinhar um alimento –
isso porque a pessoa precisa estar atenta para que “seu jantar” não queime –
passando pelas atividades diárias como estudar, trabalhar e até mesmo “planejar
férias” (quando iremos? aonde iremos? onde ficaremos?) ativa os mecanismos
fisiológicos e psicológicos do estresse. Ocorre que geralmente após a
realização destes feitos, o corpo retorna ao seu estado de repouso e pode
repetir noutro momento tudo do mesmo modo, indefinidamente. Então, qual é o
problema? Quando estes mecanismos permanecem “ligados” por muito tempo. O
estresse em si é benigno e necessário para nossa sobrevivência, mas quando
continua ativo, preparando o corpo para algo “que nunca acontece” pode trazer
consequências seríssimas, desde lesões orgânicas simples até desajustes
emocionais, dependendo da singularidade de cada sujeito. Algumas pessoas
reclamarão de questões relacionadas ao corpo (dores, cansaço, doenças etc.),
enquanto outras serão afetadas mentalmente e/ou emocionalmente (sentimento de
“não-pertencimento”, baixa auto-estima, raiva, rejeição, depressão e outros).
Permita-me contar uma experiência pessoal.
No ano passado viajei com a minha família ao continente africano para um projeto
missionário de curto prazo, foram quase dois meses onde percebemos elementos
que poderiam gerar o choque cultural. Porém, como afirmam alguns autores, não o
enfrentamos porque o intervalo de tempo não era suficiente para vivenciar as
suas fases e também porque sabíamos que voltaríamos logo e isso nos “livraria”
da chegada do dito “visitante” (na verdade, “intruso”). Conhecemos jovens
missionários europeus que estavam servindo lá há meses (tempo variado entre
eles) e tivemos alguns encontros. Inclusive, dividimos a mesa numa refeição.
Pouco tempo depois o casal que nos hospedava foi procurado pelo representante
da missão responsável pelo envio destes irmãos. A preocupação dele era porque
uma das moças (eram três moças e um rapaz) estava com sinais de depressão e ele
precisava de um laudo (ela iria retornar prematuramente para casa) para que ao
chegar a seu país as questões burocráticas fossem resolvidas da melhor maneira
possível. Como nossa anfitriã é médica, ela esteve com a moça e de fato
identificou tais sintomas.
Depois do encontro, e “fechando um diagnóstico”, foi visto que conforme a
literatura médica o caso dela sugeria “depressão moderada” e a indicação foi
para que procurasse ajuda imediata de um especialista quando desembarcasse.
Enfim, ela retornou ao seu país e em menos de 20 dias recebemos a notícia que
esta jovem “se suicidara” (ela tomou muitos medicamentos e não houve tempo
hábil para socorrê-la). Foram horríveis os dias seguintes à notícia, mas o fato
estava consumado e nada mais podia ser feito por ela! Essa situação me fez
refletir sobre alguns aspectos do que tem sido dito sobre o choque cultural e a
primeira questão aflorada diz respeito ao que fora feito “antes” do envio e
“durante” os primeiros meses. Será que o problema era pré-existente e não foi
percebido ainda “em casa?”. Se foi diagnosticado, ou pelo menos suspeitado, o
que foi feito? Por outro lado, essa “preciosa” missionária (que poderia dedicar
duas ou três décadas de sua vida ao Senhor e aos campos!) teria seguido as
orientações de seus enviadores? E quando ela estava no campo, sua igreja
“estava lá” com ela? Seus líderes “próximos” e “distantes” não perceberam
quando os limites foram transpostos e a situação agravada? E no seu retorno
para casa, como teriam sido os terríveis dias (sozinha ou com uma forte rede de
apoio? “Ao colo” de alguém ou dependente unicamente do favor divino?), que
antecederam uma medida extremada como a dela? Enfim, as indagações são muitas e
o objetivo é amadurecermos algumas respostas para que seja possível assistirmos
com melhor qualidade aos nossos irmãos que estão no campo.
Quando afirmamos – inclusive citando as palavras do Senhor a Paulo: “a minha
graça te basta” (II Co 12.9) – a suficiência de Cristo em nossas vidas,
precisamos considerar que ele quase sempre usa meios humanos para realizar seus
intentos. Basta olharmos para a bíblia: Deus tinha planos e os realizou através
de pessoas! A independência (ele é capaz de cuidar excepcionalmente bem de seus
filhos sem “ajuda externa”) dele em relação a nós não precisa ser discutida –
como diz a frase nas carrocerias dos caminhões: “Deus sem você é Deus...” –
todavia, quando alguns missionários afirmam que ao enfrentarem os golpes do
choque cultural buscaram ajuda “em Deus somente” o que temos de discutir não é
a presença divina, mas a nossa ausência nesta hora tão crítica da adaptação nos
campos. Poucos receberam suporte pastoral e a minoria foi assistida
emocionalmente. O próprio Cristo pediu companhia em seu momento de maior
dificuldade (Mt 26.36-46 narra o episódio do Getsêmani). Tenho repetido
ultimamente as antigas (e esquecidas?) palavras de Tiago 3.1 “Meus irmãos, não
vos torneis, muitos de vós mestres, sabendo que havemos de receber maior
juízo”. Não temos espaço para comentar o texto, mas o conteúdo nos remete às
palavras de Jesus em Lucas 12.48 “àquele a quem muito foi dado, muito lhe será
exigido”. É simples o que está sendo discutido: temos talentos, dons e recursos
disponíveis e suficientes para cuidarmos com excelência dos missionários, e às
vezes ficamos indiferentes, envolvidos e ocupados com nossos próprios dilemas e
deixamos sós na “linha de frente” soldados sobrecarregados e já esgotados por
terem que batalhar em muitas “frentes de guerra” (pessoalmente, familiarmente,
ministerialmente, espiritualmente e um monte de outros “mentes”).
Deus tem dado (ou melhor, emprestado, e para ser bíblico: “colocado sob nossa
administração”) a nós individualmente e ao corpo de Cristo (à igreja local) uma
fonte inesgotável de recursos para fazermos o melhor pastoreio de missionários
de todos os tempos! Temos a tecnologia ao nosso lado, dispomos de transporte
que liga todos os cantos do mundo, há gente gabaritada nas mais diversas áreas
(ministeriais) e profissões (seculares), muitos são empresários, autônomos e
para que a “bênção seja completa”, a economia do país tem se mantido
estabilizada por alguns anos. Isso tudo proporciona o envio de pastores,
conselheiros, psicólogos e médicos ao campo para cuidarem integralmente dos
obreiros. Por outro lado temos gente que trabalha com crianças que podem cuidar
dos filhos dos missionários e lhes dar a oportunidade para dias ou semanas de
férias. Tantos outros podem “assumir provisoriamente” ministérios realizados
pelos obreiros e dar-lhes a chance de voltar ao “quartel-general”, ou
simplesmente “pendurar as enxadas” (quando usamos a metáfora do “campo” e da
“seara” do Senhor) para renovarem as forças. Uma dona de casa pode fazer as
refeições diárias para que a missionária “saia da cozinha” por algum tempo.
Enfim, temos potencial humano e recursos financeiros que nos instrumentalizam
para o cuidado, tanto no choque cultural, quanto na reentrada (que foi tido
pelos missionários como pior, mas seria ainda mais fácil para nós porque
“estamos em casa” e dispomos de um número ainda maior de instrumentos em nosso
arsenal/celeiro para pastorear).
O desenvolvimento saudável do candidato em sua igreja local o habilita para um
treinamento formal (seminário, escola de missões ou outro do gênero) mais
específico, mas se isso não ocorrer é imperativo que haja um “gargalo” que
“segure” essa preciosa pessoa para que ela seja cuidada nas áreas que ainda
precisam de lapidação. A dinâmica psíquica ainda não recebe o devido
tratamento. No ápice do estresse – os obreiros disseram que os primeiros seis
meses são muito difíceis, mas o primeiro mês requer cuidado especialíssimo – a instância
psicológica do indivíduo é posta à prova. Assim, como na maioria dos casos é
impossível afastar os estressores, então a solução é focalizar no “estressado”.
Isso mesmo! Como não podemos evitar certas variáveis geradoras de estresse
inerentes ao processo (cultura e idioma diferentes, missionários antigos no
campo, crentes e igreja local, saudades da família e por aí em diante)
centralizam-se os esforços no obreiro. A pressão existe e se é possível
privá-los dela, façamos isso a contento, mas também trabalhamos com o
“pressionado”. Aliás, alguns obreiros sugeriram que, dependendo da situação,
seria melhor “tirar o missionário do olho do furacão” e levá-lo para um local
“neutro” e após assisti-lo, permitir seu retorno.
Enquanto refletimos sobre esse tema centenas de irmãos enfrentam o choque
cultural. Alguns estão num grau de estresse tão alto que deveriam rever suas
atividades imediatamente. Outros já extrapolaram esse limite e provavelmente
colhem os frutos nocivos de um estado estressor crônico. Quando usamos um
automóvel de modo correto, sua vida útil será grande. Porém, quando este mesmo
veículo é exposto a situações que comprometem seu funcionamento, mesmo que não
“vejamos os estragos na hora”, cedo ou tarde ficaremos “quebrados na estrada”.
Esse não é o melhor exemplo, comparando gente com carro, mas ele nos ajuda a
compreender a importância de não ultrapassarmos limites. Todos nós somos
limitados. Todavia, quando percebemos isso e “damos folga a nós mesmos”,
conseguiremos reaver nossas defesas e retomar a caminhada. O problema em
relação aos obreiros transculturais é que estão sempre “forçando o ‘motor’ além
de sua capacidade tolerável”. A máquina até consegue suportar uma aceleração
demasiada por algum tempo, mas se tal intensidade permanecer, nem as máquinas
suportam. Imagine o ser humano!
Os missionários disseram que há um desequilíbrio entre “a oferta e a procura”
de cuidados. Eles falaram que o que é oferecido não supre suas necessidades. O
que pode ser feito para balancear tal situação? Encontros de restauração no
campo, cuidados que considerem a integralidade do sujeito (corpo, alma e
espírito) e toda a família e seus membros individualmente (casal, filhos,
pais), retirada estratégica para renovar as energias, menos trabalho e mais
descanso quando estão em férias/promoção, pedem que sejam preparados para se
adaptarem melhor na chegada e no retorno, insistem que suas igrejas de origem
carecem de treinamento para lhes receberem, comentam que suas famílias também
não estão prontas a reintegrá-los e também devem ser orientadas, pedem contato
de profissionais (psicólogos, se for o caso) – e até mesmo uma possível visita
– quando estão enfrentando o choque e assim por diante.
Resumindo, a seara é grande “lá fora” e à medida que recebe ceifeiros ela
também cresce “aqui dentro”. O corpo é múltiplo e cada membro tem uma função
definida por Deus. Se apenas uma perna anda, o corpo até se movimentará, mas o
esforço será muito maior e também sofrerá consequências. Enxergar com um dos
olhos é difícil, caminhar sem enxergar até é possível, mas quando a “candeia do
corpo” funciona perfeitamente, os passos serão mais firmes e os riscos serão
mais bem percebidos. “Lá longe” está uma parte do corpo e ela só sobreviverá se
– mesmo à distância – estivermos em perfeita sintonia. Se aquele membro sofre,
não é possível ficarmos indiferentes. Aproveite agora mesmo e acesse o site de
qualquer agência missionária e diga: “estou aqui”. Num dos encontros de
restauração realizado pelo CEM (Centro Evangélico de Missões em Viçosa/MG) os
missionários falaram do privilégio de servirem ao Senhor noutra cultura, mas
insistiram que seus enviadores jamais deveriam se esquecer da humanidade deles.
Uns vão, outros ficam, mas todos têm sua função. Usando as palavras de Paulo,
“Deus dá o crescimento”, mas “uns plantam e outros regam”. Não se preocupe com
o sobrenatural, com aquilo que só Deus pode fazer, mas empenhe-se pelo natural,
pelo que você deve fazer.
Referências
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