Ricardo Lengruber Lobosco
O
medo é um sentimento imperial. Quando se tem medo de algo, o corpo todo
coopera para a reação, seja reação para se esconder, seja para agir e
enfrentar. Isso ocorre com pessoas e animais, mas com intituições é
diferente. Instituições não têm relação de medo com nada nem com
ninguém, apenas relações de conveniência e adequação.
Uma
instituição se baseia sobre a lógica de, existindo, levar adiante sua
chama originária e fazer dessa bandeira uma verdade a ser apregoada aos
quatros cantos. Institui-se, assim, suas verdades e ideais e, para eles,
cargos, funções, regras, metas, planos etc.
A
questão é que com o tempo os meios se sobrepõem aos princípios e tornam
os fins menos condizentes com as raízes e mais subservientes a si
próprios.
As
igrejas são os exemplos mais emblemáticos dessa esclerose. Nascem por
força do Evangelho e a ele prometem prestar obediência e fidelidade.
Cânones, doutrinas, ritos e pessoas ao Evangelho se curvam e, em nome
dele, planejam e agem. Com o tempo, todavia, a Igreja passa a ser maior
que o Evangelho e assume o protagonismo da história. Com isso, nada será
mais importante nos processos do que a fidelidade à Igreja, mesmo que
em detrimento ao Evangelho.
Quando
disso tomamos ciência, as coisas já desandaram. Quando menos se
percebe, os meios se tornaram ídolos para os quais nos curvamos e,
inconscientemente, somos capazes de viver uma vida toda.
Amo
a Teologia porque sua forma de pensar sobre a realidade é profundamente
fiel ao Evangelho. O que mais vale é descobrir o sentido escondido por
sob as cinzas da realidade. O que há de mais belo na Teologia é sua
busca incansável por tornar o Evangelho compreensível para o tempo que
se chama hoje.
Daí, talvez, a periculosidade da Teologia!
Se,
na instituição, em regra, os meios se sobrepõem aos princípios e fins e
a Teologia insiste em redescobrir sempre a semente originária donde
tudo germina, fica claro que sua presença não é costumeiramente bem
assimilada.
Óbvio
está que me refiro à Teologia que se faz com base na Fé e na Ciência.
Na plena capacidade de crer e confiar e na suprema arte de perguntar e
criticar. Mas há outras formas de fazer teologia que não são dignas do
nome que arvoram; são apenas arremedos do labor teológico. São discursos
encomendados pela instituição e a ela servem cegamente. Dizem o que já
está posto e apenas repetem acocoradamente o modo como as coisas estão e
devem permanecer. Mais parecem manuais de alvos e metas.
Quando
as instituições crescem e se deformam, a Teologia torna-se não querida.
Sob o discurso da “morte da fé”, acusam-na de incrédula e cética. Não
se percebe, entretando, que se trata da morte de uma fé já caduca e, por
consequência, a semeadura de uma fé nova que precisa de solo arado e
água pura para germinar.
Os
que acusam a Teologia de ameaçar a fé sincera do cristão o fazem por
ignorância ou por má-fé. Ignorância que deve ser relevada, desde que
instada a se defrontar com as crises oportunizadoras de emancipação que a
Teologia promove. Mas quando se trata de má-fé, a questão é outra e
deve ser denunciada. Para que as coisas se mantenham como estão e os
meios se sobrepujam aos fins, a Teologia deve ser posta de lado.
O grande desafio das instituições evangélicas é saber harmonizar o seu modus operandi
com a riqueza e a liberdade do vento do Espírito. O curioso,
entretanto, é que esse esforço só logrará êxito se for impulsionado pela
força que a Teologia, ela mesma, exige de si.
Se
é verdade que a Fé demanda institucionalidade, para que se realize
historicamente, no fundo, a obediência a Deus exige, paradoxalmente, o
exercício da mais profunda liberdade teológica, aquela que nos ajudar a
sermos capazes de experiementar a Fé sem os ditames dessa ou daquela
instituição.
Por
fim, devo esclarecer: por menos que perceba e se aceite, as
instituições sempre morrem; o que parece permanecer é a casca sob a qual
os processos efetivamente se realizam. O que sempre permanece vivo é o
discurso e a prática da Fé, isto é, a Teologia! Se as instituições
conseguem se permanecer de pé é porque a Teologia insiste,
espiritualmente, em se manter viva e em dar vida às instituições. Mesmo
quando o vento sopra desde fora, quando a Teologia é posta para longe
dos altares, é a força da originalidade perene do Evangelho que mantem
as instituições capazes de se renovar e com a promessa de manterem vivas
e relevantes.
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